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18/10/2005 - 00:27 Uma dúvida no ar
Não, a descrição acima não retrata uma pelada de fim de semana entre amigos em um clube qualquer.
Trata-se do cenário bizarro da decisão masculina do basquete da 69ª edição dos Jogos Abertos do Interior, a tradicional Olimpíada Caipira, disputada em Botucatu (SP) no último sábado.
Em ação duas das maiores potências da modalidade no país: Franca e Assis. No comando das equipes, técnicos com rodagem invejável. Hélio Rubens e Marco Antonio Aga – este último selecionador das categorias de base de CBB.
O enredo da trama que, ao desavisado torcedor pode parecer cômico, é, na verdade, trágico.
Na briga pela medalha de ouro na competição esportiva mais vultosa da América do Sul, os candidatos ao título colocaram uma tremenda interrogação sobre a prática do bola-ao-cesto no território nacional.
O motivo do desfalque surpreendente nos esquadrões finalistas foi a realização pioneira do exame antidoping no torneio.
Alegando desinformação sobre os testes, francanos e assisenses abriram mão de cadastrar seus elencos completos para o duelo decisivo e submeteram alguns de seus atletas a uma maratona extenuante de 40 minutos de jogo – no caso de Franca, sem nenhuma substituição. Carga desumana para um dia nefasto na história do basquete brasileiro.
A resistência da cartolagem e dos homens que atuam diretamente e indiretamente dentro das quatro linhas atrasou em exatos 35 minutos o início da partida que definiria a cidade campeã.
Depois de muito bate-boca, os discursos foram afinados. De ambas as partes, a retórica era a da absoluta ignorância. Ninguém admitia conhecer a adoção do novo mecanismo de combate ao doping.
Para poupar as carreiras dos pupilos, a prudência recomendava tirar das quadras aqueles que se submetiam a “tratamentos médicos”.
Qualquer leigo sabe que substâncias químicas encontradas em simples descongestionantes nasais e mesmo em suplementos alimentares aparentemente inofensivos podem testar positivo no antidoping, o que pressupõe cuidado especial em sua administração para o chamado “esporte de alto rendimento”. Ou não estamos falando da elite?
O argumento do desconhecimento das equipes acerca da nova regra é, sobremaneira, frágil e inconsistente.
A Secretaria Estadual de Juventude, Esportes e Lazer de São Paulo alardeou, por ocasião do início dos Jogos de Botucatu, a adoção dos mecanismos de controle. Eram claras ainda as categorias e modalidades que seriam incluídas no procedimento.
O governo do Estado deu publicidade à medida no dia 7 em farto material institucional. Com razão, os organismos oficiais divulgaram a norma como “importante conquista” para os esportistas paulistas.
“Os exames serão realizados por equipe composta de três ou quatro profissionais, que pode ser integrada por médicos e fisioterapeutas ligados ao esporte, e em casos extremos até mesmo por juízes e procuradores, como já ocorreu em episódios internacionais. Nas competições de Botucatu professores estarão fazendo os exames, sob a supervisão dos médicos Rafael Trindade e Bernadino Santi, profissionais com larga experiência em assuntos desportivos”, advertia o presidente do comitê dirigente dos Abertos, José Cleofano Maffei, em informe divulgado pela assessoria do evento.
Cabe aí um parêntese. Maffei é um profissional de excelência reconhecida internacionalmente. Uma autoridade inquestionável na organização esportiva.
Em sua narrativa para o caso, ele cita o nome do médico Rafael Trindade, o pivô da discussão que alimentaria a polêmica na disputa pelo ouro. Foi Trindade o responsável pelo aviso da coleta de material de dois atletas (escolhidos mediante sorteio) para o exame antidoping. Coube a ele a alcunha de “inflexível” quando buscava apenas cumprir as regras. Ora bolas, o que são regras, regulamentos?
Em declaração infeliz ao site Gazeta Esportiva.net, Hélio Rubens, dono de currículo brilhante, chegou ao cúmulo de lamentar a conduta do profissional da medicina que ali cumpria seu dever e atribuir a ele a “perda do brilho” da competição. Não quero acreditar que se fazia uma apologia ao “jeitinho brasileiro”, conduta condenável em tempos de mensalão e Máfia do Apito.
O método utilizado, difundido pela Wada (Agência Mundial Antidoping), custou aos cofres públicos R$ 750 por cada kit empregado na coleta de urina dos atletas.
Dois deles foram submetidos ao teste nos vestiários no intervalo do embate final. Os resultados saem em um prazo estimado de 30 dias.
Ainda contra as falaciosas teses dos municípios envolvidos, outro trecho do documento tornado público pela organização ainda no dia 7 não deixa margem para dúvidas.
“Os Jogos Abertos do Interior serão os primeiros a implantar os exames, que terão por objetivo a detecção de substâncias tais como esteróides, anabolizantes, e diuréticos, que serão aplicados em atletas finalistas das modalidades basquete [1ª divisão], boxe, ciclismo, futebol, vôlei [1ª divisão], natação, handebol [1ª divisão], luta olímpica, tae-kwo-do e judô”, diz o texto, disponibilizado no site oficial da competição e distribuído a todos os envolvidos no evento.
No Congresso Técnico (conferência que precede a abertura das competições) o tema também fora tratado com destaque, o que derruba, novamente, a defesa dos clubes.
Nunca é demais lembrar que, antes de passar pelo exame, o jogador assina um termo em que descreve todos os tratamentos a quem vem sendo submetidos, seu histórico médico e relata o eventual uso de medicamentos que possam comprometer o resultado da checagem.
Comportamentos como os verificados no fatídico 15 de outubro representam graves retrocessos para o basquete nacional em um momento em que emergem iniciativas auspiciosas para o resgate da modalidade no país.
Só quem presencia ou participa ativamente das competições como os Jogos Abertos sabe o valor da implementação do antidoping nas suas partidas.
A suspeição de uso de substâncias proibidas para “turbinar” a performance de atletas nas mais diversas modalidades é assunto recorrente nos bastidores do evento desde que ganhou relevância continental.
Pressionados por contratos temporários feitos por prefeituras que muitas vezes utilizam a prática desportiva para fins meramente políticos, atletas importados para representar as cidades paulistas e ajudá-las a galgar alguns postos no quadro geral de pontuação carregam a responsabilidade extra de trazer resultados a todo custo.
O expediente da ingestão de ingredientes artificiais para otimização do desempenho torna-se um perigoso atalho para o triunfo, ainda que efêmero.
Vejam que este não é caso das equipes em questão na decisão da bola-laranja, cujas raízes estão fincadas nas suas cidades-sede.
É leviano deduzir qualquer irregularidade nas equipes envolvidas na competição, mas quem tomou a decisão de tirar das quadras os personagens centrais do espetáculo esportivo deixou uma enorme dúvida no ar. Mesmo dizendo-se defensores do antidoping, deram margem a um constrangimento que marcará de forma negativa a história de um campeonato que surgira exatamente da prática basquetebolística.
Isso porque os Abertos nasceram em Monte Alto (SP), em 1936, com uma única modalidade: o bola-ao-cesto.
A propósito, o ouro, ainda que manchado pelo incidente, ficou com Assis, que marcou 101 a 86 no placar.
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