Nenê Hilário é desfalque quase certo na seleção brasileira parca o Pré-Mundial de agosto na República Dominicana. Seja por motivos médicos, técnicos ou políticos, o pivô do Denver Nuggets já mandou todos os recados a dirigentes e treinadores, que não escondem mais o desapontamento.
A iminente ausência do mais imponente rebento do basquete nacional desde a Era Oscar já é objeto de experimentações e projeções por parte da comissão técnica do selecionado brazuca.
A aposta é em uma formação tática ousada para os padrões da equipe canarinho, habituada aos contra-ataques pouco coordenados, acompanhados de aventureiros tiros de meia distância e irresponsabilidade defensiva a toda prova.
Tiago Splitter, outro provável astro da NBA nas próximas temporadas, deverá ser testado como ala ao lado de Anderson Varejão tendo como horizonte o torneio qualificatório para o Mundial do Japão.
“Já dei essa idéia para o Lula e já começamos a trabalhar desde o ano passado ele [Tiago] e Anderson nessa função, de 3”, afirma Guerrinha, auxiliar técnico da seleção, em entrevista ao Rebote direto de Phoenix, na fase derradeira de seu estágio em solo norte-americano - que também incluiu Salt Lake City, em Utah.
A estratégia implica jogo denso no cerco aos garrafões pelos dois gigantes (Tiago tem 2.11m e Varejão, 2.09m), abrindo espaço para a explosão de Baby e liberando o perímetro para Leandrinho e Marcelinho – dupla que herdaria a missão de conduzir a transição rápida.
Optando por esse quinteto, com média de estatura invejável e vigor nos matchups na área pintada, o Brasil sairia em vantagem na briga pelas quatro vagas que estarão em jogo em Santo Domingo.
“O nível dos adversários é muito alto, mas o Brasil conseguirá sua vaga. Cruzar com os EUA logo de cara será bom, pois vamos enfrentá-los ainda sem conjunto”, prevê Guerrinha, que retorna ao país em junho e traz na bagagem extenso material para análise ao lado do treinador Lula e do outro auxiliar na comissão técnica, Flávio Davis.
“Já marcamos uma reunião de quatro dias para trocarmos todas as informações”, adianta o ex-jogador. Ele abortou a última etapa de sua jornada internacional – que seria realizada em Dallas, a convite de Donnie Nelson. “Seria complicado ir de Phoenix para lá, poderiam achar estranho em fase de playoffs e preferi deixar para o ano que vem”.
Confira a seguir os principais trechos da segunda parte da entrevista de Jorge Guerra ao Rebote.
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Rebote - Você esteve em Denver no ano passado. Desta vez, fez algum contato com o Nenê?
Guerrinha - Eu estava aqui só num jogo em que ele veio a Phoenix - no outro eu estava em Salt Lake. Mas não deu para ter contato com ele por problemas de segurança do Denver. Tentei ir ao treino, mas os caras (seguranças) não deixaram. Não queriam aceitar uma pessoa de fora no treino e, no jogo, foi tudo muito corrido. Na hora que consegui chegar aos vestiários do Denver, o Nenê já tinha ido para o hotel. Faltou oportunidade.
- Chegou a conversar com ele sobre essa ameaça de boicote à seleção? É possível acreditar na presença dele no Pré-Mundial de Santo Domingo?
- Pelo que sei, o Nenê teve uma temporada desgastante em virtude da lesão no joelho. Como tem seu contrato agora para renovação por longo tempo, ele prefere se dedicar à recuperação da lesão para ter uma temporada na frente sem problemas.
- Voltando a falar de seleção, qual a perspectiva hoje em termos de quadra no Pré-Mundial em relação a Leandrinho, Varejão e Baby? Como vem sendo conduzida a questão da liberação deles?
- A liberação burocrática é feita pela CBB e pelas equipes deles. Não vejo problemas, a questão é de alguns jogadores estarem no início do contrato e outros - caso do Anderson - que precisam jogar a liga de verão. Contornando esses problemas, eles integrarão normalmente a seleção, cada um no seu tempo.
- O que você achou da composição das chaves do Pré-Mundial? O confronto precoce com os Estados Unidos é positivo?
- Tudo depende de vitórias em um sistema de disputa desses. De uma forma ou de outra, você tem de cruzar com 90% das equipes. É até bom cruzar logo com os EUA porque eles não terão conjunto - apesar do talento. A nossa briga será contra os outros, não com os EUA.
- Quais as chances reais de o Brasil conquistar uma das quatro vagas? Quem são os principais adversários?
- São boas, como sempre. O que precisamos entender é que o basquete masculino hoje no mundo é muito forte. Quando houve a divisão do bloco socialista, aumentou ainda mais o número de candidatos em potencial para engrossar o caldo. E isso ocorre no nível das Américas também. O basquete está globalizado em todos os aspectos, há mais jogadores estrangeiros na NBA. Com o mundo on-line, tudo ficou mais fácil para todos. Antigamente chegava uma fita da final do universitário, do All-Star Game, só dois anos depois - e olha lá quem tinha esse privilégio. Hoje, no meio do mato, você assiste ao vivo às finais. Isso facilitou pra todos, abriu o mercado e o basquete masculino internacional é muito competitivo. Não existe muita diferença, mas o Brasil, pelo seu potencial, com certeza vai estar classificado para mais um Mundial.
- Qual é o cronograma de preparação da seleção para o Pré-Mundial? Você tem acompanhado a preparação desse roteiro?
- Sempre mantemos contato pelo menos duas vezes por semana. Eu, o Lula e o Flávio (Davis) trocamos informações técnicas, de estudos, de material. Somos bastante parceiros em tudo. A programação foi feita e está tendo algumas modificações por problemas de outros países, que também alteraram suas programações. Isso é normal num planejamento. Mas em junho, na minha volta, já marcamos uma reunião de quatro dias para a gente sentar e trocar todas as informações aqui adquiridas, com o material de edição, filosofia, tática e o conteúdo que já tínhamos preparado no Brasil para fecharmos a programação definitiva da pré-temporada da seleção.
- Os brasileiros que estão na Europa vêm sendo monitorados, especialmente Tiago, Guilherme e Marcelinho Huertas? E o Marquinhos Souza, ex-Mogi, você tem acompanhado?
- O Lula mantém contato com os jogadores nesse lado técnico e físico de cada um. Temos contato por e-mail, MSN, sempre temos contatos com os jogadores e estamos em sintonia com eles.
- Como você analisa a evolução de Tiago Splitter no Tau Ceramica, tanto na liga espanhola como na Euroliga? Em termos de explosão no jogo dentro do garrafão, parece nítido seu progresso.
- O Tiago e o Anderson são os mais talentosos jogadores nos últimos tempos que apareceram no Brasil. Foi bem trabalhado esse lado do Tiago internacional desde a ida dele para Europa e a inclusão dele logo cedo nas seleções. Se ele estivesse junto com o Marquinhos na seleção Sub-21 no Canadá, certamente estaríamos no Mundial, mas por problemas de contusão eles tiveram que pedir dispensa - caindo em 80% o potencial da seleção. Eles seriam o nosso diferencial. E hoje ele está com essa importância no adulto também, podendo ser utilizado na lateral na função de 3. Já dei essa idéia para o Lula e já começamos a trabalhar desde o ano passado ele e o Anderson nessa função.
- Splitter é uma das apostas do Draft 2005. Você vê futuro para o atleta na liga norte-americana? Fala-se no nome dele por aí?
- Esse é um mundo de negócios, e às vezes, não interessa aos agentes ele estar no draft este ano por ser novo. Podem retirar e ganhar mais um ano, há multas etc. Mas o futuro dele é na NBA. O Utah Jazz está louco por ele. Quando estive lá, só falavam nele.
- Sobre o sistema de jogo, qual a principal lição tática que você extraiu de sua permanência aí?
- Em relação aos esquemas táticos e filosofias, tudo que você vê tem que adaptar ao nosso basquete. Isso porque os jogadores vêm de formação diferente na base, com disciplina tática, fundamentos e mais coisas. O jogador brasileiro, por cultura, é mais criativo e malicioso, tem mais quilometragem em jogos. Assim, sai mais para o improviso para o individualismo. Mas o lado defensivo e a concentração do jogador em função da equipe são as grandes virtudes do basquete universitário e, conseqüentemente, dos Cougars da Brigham Young University (BYU).
- E a relação da comunidade com os Cougars, como lhe pareceu?
- O americano tem essa relação instituição-cidadão muito bem resolvida. Quando estão num plano superior (profissional e financeiro), eles voltam às universidades em que se formaram e fazem doações e contribuições com os programas que os ajudaram um dia. Em sinal de puro agradecimento. São fanáticos com as equipes deles.
- Em Brigham Young, como os dirigentes e treinadores analisam a performance de Baby em sua primeira temporada na NBA, egresso da equipe para o Toronto Raptors?
- É um dos orgulhos deles ter um jogador (do programa da BYU) em uma equipe da NBA. Só com esse resultado, já ficam satisfeitos. As análises de performances daqui são diferentes dos valores do Brasil. Infelizmente, no Brasil temos a mentalidade do futebol, não se analisa um resultado de trabalho, mas simplesmente a vitória. No futebol, um gol de mão resolve tudo.
- O Walter Roese Jr. foi diretor de basquete e agora é assistente técnico da BYU. Existe a possibilidade de manter essa ponte de atletas brasileiros para a universidade?
- O Waltinho é uma pessoa fantástica. Ele ajuda todos os brasileiros que estão aqui nos EUA, independentemente de ser na BYU. Ele tem um espaço muito grande no basquete universitário. É um dos brasileiros mais influentes aqui.
- É possível estabelecer um paralelo entre o basquete brasileiro, o universitário americano e a NBA? O que diferencia basicamente estas três categorias?
- Cada um tem seu estilo. O universitário está concentrado num programa em que o técnico é o centro de tudo. Muita disciplina tática, técnica e moral. A NBA seria uma Fórmula-1. Tudo de ponta, carro, piloto, estrutura e apresentação, shows, espetáculos. Um mundo tático, técnico diferente da Fiba e do universitário, começando pelas arbitragens. O basquete Fiba é o intermediário dos dois mundos. Taticamente tem ingredientes dos dois: as regras de liberdade com responsabilidade de adulto internacional que é praticado diferente em cada país, pelos campeonatos internos, pelo critérios de arbitragens, potencial financeiro de cada lugar. Se você tirar os americanos e estrangeiros que estão no basquete europeu, cai para 30% do seu potencial, refletindo depois nas seleções no futuro.
- Os Jogos de Atenas premiaram o jogo solidário, fortalecido em equipes de alta rotatividade, cadência ofensiva (vide desempenho de Argentina, Itália, Grécia, Lituânia) e forte aposta na transição rápida. Qual será a marca da seleção brasileira daqui em diante? É possível prever um sistema de jogo mais adequado ao perfil dos nossos atletas?
- O Brasil tem de ser caracterizado pelo que sempre teve de melhor: transição ofensiva, criatividade de seus jogadores, decisão individual. Mas para isso você tem de ter jogadores assim. Como na época do Oscar e do Marcel, agora podemos manter essa característica e acrescentar o lado tático que o basquete moderno exige. Na hora em que precisar jogar coletivamente, melhorar as opções de defesa taticamente. É sempre o jogador que vai fazer a diferença na hora H. Sem perder a alegria de ser brasileiro, ofensivo e com responsabilidade.
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Confira aqui a primeira parte da entrevista.
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Zona Morta
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))) Grego, em entrevista ao bom Dossiê Sportv que disseca a crise no basquete brasileiro, disparou, em tom quase punitivo: “Distância até 800km é de ônibus”. O dirigente refere-se ao deslocamento terrestre de atletas no Nacional masculino. Pobres das pernas dos nossos bravos basqueteiros.
))) Em Genebra (Suíça), a Fiba resolveu criar regras para disciplinar as relações das federações com as ligas nacionais. O secretário-geral Patrick Baumann considera a iniciativa "fundamental para desenvolver um elo frutífero e construtivo entre as associações reconhecidas pela entidade máxima do basquete e seus respectivos clubes". O discurso é pomposo.
))) Manu Ginobilli, Fabrício Oberto e Alessandro Montechia, da geração de ouro portenha, vão promover o Mundial Sub-21 (aquele que vamos ver só pela TV – e com muito sacrifício) em Córdoba e Mar del Plata entre 5 e 14 de agosto. Os astros argentinos são os trunfos da Fiba e da confederação local na divulgação da competição. Será que a CBB fará o mesmo com Hortência e Paula no Mundial Feminino de 2006? Quem (sobre)viver, verá.