24/05/2006 - 00:24

A hora da colheita - Entrevista com JP Batista

João Paulo Batista, ou simplesmente JP Batista.

Em três anos, este brasileiro orgulhoso por ter nascido em Olinda, Pernambuco, conquistou o seu espaço nos Estados Unidos.

Desenvolveu seu jogo e aprendeu a língua. Chegou aonde nenhum outro conterrâneo tinha chegado no torneio universitário mais importante do planeta: as oitavas-de-final da NCAA. Como se não bastasse, ainda terá um diploma em Gerenciamento de Esportes.

Dentro da quadra, Batista manteve médias de 19.3 pontos, 9.4 rebotes e 1.4 assistência ao longo da temporada. Velocidade e posicionamento embaixo da cesta ajudaram JP a se transformar na segunda opção ofensiva da Universidade de Gonzaga.

O talento e a técnica ficam evidentes na facilidade com que ele define os pontos de segunda chance, criados a partir de rebotes ofensivos após os erros dos companheiros. Excelente chutador de lances livres, o brasileiro certamente irritou quem insistiu em pará-lo com faltas.

Todos esses fatores renderam elogios de diversos comentaristas, que apostavam em Gonzaga para figurar entre os quatro melhores times universitários do país.

Se o jogo embaixo do aro adversário lhe deu reconhecimento, JP não é nenhum Big Ben no que diz respeito à defesa. Distribui seus tocos, mas precisa melhorar o posicionamento para fazer o salto rumo à NBA. Como não tem altura para enfrentar os grandes pivôs da liga profissional, pode migrar para a ala-de-força.

Em entrevista exclusiva ao Rebote, Batista comenta a adaptação à rotina americana e revela suas expectativas em relação ao draft de junho e à seleção brasileira que disputará o Mundial no Japão.

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- Falta praticamente um mês para o draft da NBA. O que você tem ouvido falar dos olheiros e do seu empresário sobre a posição em que pode ser escolhido? Qual é a sua expectativa?
- Meu agente já conversou com quase todos os time da NBA, e muitos demonstraram interesse. Muitos acham que, se eu tiver bons treinamentos com as equipes da liga, posso ter uma boa oportunidade de entrar no fim da primeira rodada ou no começo da segunda. Minha expectativa pessoal é estar na melhor forma possível e dar o meu máximo nos treinos.

- Em qual time da NBA seu estilo se encaixaria melhor? Pensa em jogar para que tipo de técnico?
- Não sei muito bem qual time seria melhor para o meu estilo de jogo. Não tenho nenhuma preferência com respeito a técnicos. Mas, sem dúvida, gostaria muito de jogar num time em que o sistema envolvesse bastante os pivôs.

- Você tem acompanhado os playoffs da NBA? Na sua opinião, qual é o favorito para o título?
- Tenho acompanhado sim. Torço pelo Miami Heat, mas é claro que, no fundo, eu torço pelos brasileiros. Leandrinho me surpreende a cada jogo e Anderson também atuou super bem.

- Por falar nos brasileiros, Baby também fez muito sucesso com a torcida no basquete universitário, mas ainda não conseguiu render o esperado na NBA. Isso te preocupa?
- Claro que não. O Rafa está passando por uma fase em que ele precisa do apoio do torcedor brasileiro e não dessas críticas negativas. Tenho certeza de que ele vai superar isso e tudo correrá tranqüilamente.

- Agora vamos à seleção brasileira. Muita gente defende sua presença no grupo que vai ao Mundial do Japão, e o técnico Lula Ferreira já deu entrevistas dizendo que está de olho em você. Quais são suas expectativas? Espera ser convocado?
- Um dos meus sonhos é defender a seleção brasileira, e especialmente num Mundial. O Lula me ligou no começo do ano e nós tivemos uma conversa ótima a respeito deste ano, com relação a uma futura convocação e ao draft.

- Você saiu do Brasil e conseguiu fazer sucesso nos Estados Unidos por uma rota não convencional. De quebra, conquistou um diploma universitário, o que faz de você um exemplo para muita gente. Como surgiu essa oportunidade e que dicas você daria para brasileiros que pensam em seguir esse caminho?
- Minha vinda para os EUA foi um presente de Deus. Um dos meu melhores amigos, Kalu Guasco, estava Jogando no Western Nebraska Community College, e eu estava de férias em Olinda, Pernambuco. Algumas faculdades estavam me recrutando por intermédio do meu técnico de Rio Prado, o Vandinho, mas infelizmente nada concreto foi decidido na época. Ao mesmo tempo, eu batia papo online diariamente com esse meu amigo. Entramos no assunto da minha ida para os EUA e ele ficou surpreso pelo fato de eu não ser pego por nenhum junior college. Disse, então, que conversaria com o técnico dele e me falaria alguma coisa no dia seguinte. Graças a Deus, o técnico decidiu me levar pra Western Nebraska Community College, e foi assim que tudo começou. Minha dica para quem sonha com uma oportunidade dessas seria sempre trabalhar duro. Se uma chance dessas aparecer, agarre com unhas e dentes. Foi o que eu fiz.

- De Olinda, terra de sol, mar e o melhor da comida pernambucana, para Spokane, que só tem florestas, chuva, frio e fast-food. Qual foi a parte mais difícil da adaptação à rotina nos Estados Unidos? Quem mora com você aí hoje?
- Minha adaptação foi ótima. Aqui é frio e úmido, chove bastante, mas a adaptação foi super fácil. No momento, estou morando sozinho em Dallas, onde também mora o meu empresário. Estou me preparando aqui para o Pre-Draft Camp, em Orlando, e os treinamentos com os times da NBA.

- John Stockton, Dan Dickau, Ronny Turiaf, Adam Morrison e JP Batista. Gonzaga sempre formou bons jogadores. A que se deve todo esse sucesso?
- Parte do sucesso vem da própria comissão técnica, que é ótima. Cada um dos técnicos aqui ensina o basquete de forma muito inteligente. A outra parte vem dos próprios jogadores, que têm talento e tiram o máximo possível a partir do que os treinadores ensinaram, colocando em prática na quadra.

- Aproveite, então, e fale um pouco sobre seu técnico, Mark Few. Como é o relacionamento com ele e sua rotina de treino?
-"Coach" Few é uma pessoa muito boa, de coração enorme, que sempre me ajudou desde o momento em que eu cheguei aqui em Gonzaga. Nosso relacionamento é maravilhoso. Ele me respeita muito pela forma como me dedico ao basquete e como ponho Deus acima de tudo. Few é uma pessoa muito religiosa. Ele nunca cobrou muito, pois sabia que, no treino e no jogo, eu daria o máximo para ajudar nosso time a sair de quadra com a vitória.

- Existe preconceito contra jogadores brasileiros ou mesmo estrangeiros que disputam a NCAA?
- Não. Preconceito é uma coisa que a população americana leva muito a sério, então é um assunto tratado com muita cautela. Mas, graças a Deus, nunca tive problema algum.

 



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