11/01/2007 - 02:29

O número 1


Brigão, teimoso, ranzinza, linha-dura, mandão. Detesta estrelismo, detesta a imprensa, xinga árbitros e compra briga com dirigentes o tempo todo. Paizão, polêmico, filantropo e genial. Pensou no Felipão? Passou longe: ele é mais parecido com o Sargento Hartman de Nascido para matar, de Stanley Kubrick.

Robert Montgomery “Bobby” ou “Bob” Knight, 66 anos, também conhecido como General, tornou-se o técnico mais vitorioso da história da Divisão I da NCAA, no dia 1º de janeiro deste ano, em Lubbock, Texas. Coach Knight obteve a incrível marca de 880 vitórias – venceu 71% dos jogos que disputou, ultrapassando o “Michelangelo do basquete”, Coach Dean Smith (879). Técnico desde os 24 anos e membro do Hall da Fama do basquete desde os 50, Bobby Knight colecionou muitos erros e situações polêmicas, assim como muitos acertos.

Ele é reconhecido por ter inventado o chamado ataque em movimento ou “motion offense”, em que pivôs grandalhões saem do garrafão para fazer o corta-luz, enquanto o armador usa a parede humana para encontrar um jogador melhor posicionado para arremessar ou fazer a bandeja. Seus times também possuem a tenacidade de marcar muito bem e muito duro no mano-a-mano e fazer coberturas quando necessário.

Knight também gosta de trabalhar o psicológico dos atletas, para deixá-los com “nervos de aço”, como gosta de dizer. É algo que considera mais importante do que a qualidade física. Para Knight, o basquete é “um jogo duro em que pessoas quebram narizes, braços, pernas... então por que pegar leve?”.

Uma vez, ele foi flagrado no vestiário com um chicote ameaçando açoitar Calbert Cheaney no intervalo de um jogo. A cena gerou o protesto do movimento civil negro, que depois entendeu que ele usa o mesmo chicote com jogadores brancos. Claro que tudo não passa de ameaça, já que a tortura são os treinos. Dois de seus motes favoritos são “Você não joga contra um oponente, você joga contra o jogo de basquetebol” e “Muitos querem vencer, mas poucos querem se preparar para vencer”, enfatizando a importância dos treinos. Knight sabe que seus treinos são duros e que poucos jogadores chegam já sabendo o que eles vão encarar. Ele também entende as críticas aos seus métodos “brutos”, mas o que ele pensa de tudo isso está resumido no fim de seu discurso de despedida em Indiana:

“Quando meu tempo na Terra chegar ao fim, e as minhas atividades aqui forem parte do passado, eu quero ser enterrado de bruços para que meus críticos beijem meu traseiro”.

Longe dessa linha-dura toda, Bobby Knight consegue ser gentil e caridoso. Mike Krzyzewski jogou e foi assistente técnico dele na Academia Militar do Exército. Durante seu tempo de jogador, Mike perdeu o pai, mas foi acolhido por Knight, que chegou a se mudar para a casa do pupilo durante um tempo. O técnico também se mostrou um filantropo quando arrecadou milhões de dólares para reformar e melhorar a biblioteca da Universidade de Indiana e também para a pesquisa de combate ao câncer.

Bobby conquistou todas as glórias possíveis, inclusive a tríplice coroa do basquete: três títulos de campeão da NCAA como técnico (um invicto em 76, marca que ainda não foi batida) e outro como jogador (Ohio State, 1958); um torneio NIT; campeão olímpico como técnico dos EUA em 84 (último ano que os americanos mandaram atletas da NCAA para uma Olimpíada, no seu time estavam Michael Jordan, Patrick Ewing, Sam Perkins e Chris Mullin). Jordan, que também jogou para Dean Smith, definiu Knight como o “mestre da palavra F”. Bobby Knight ainda foi 11 vezes campeão da Conferência Big Ten e quatro vezes técnico do ano da NCAA. Outra marca importante: 98% de seus atletas terminaram a faculdade. Um fato curioso é que apenas 29 jogadores que passaram por ele foram para a NBA, e somente um entrou para o Hall da Fama: Isiah Thomas.

Dos jogos históricos sob seu comando, vale a pena citar as vitórias de Indiana sobre o poderoso time de Michigan em 1993. Os Wolverines ocupavam o lugar mais alto nos rankings e contava com uma escalação fantástica que incluía Jalen Rose, Ray Jackson, Jimmy King, Chris Webber e Juwan Howard. Mas o time caiu duas vezes perante os Hoosiers, que tinham os modestos Calbert Cheaney na armação e Alan Henderson de pivô.

Dos lances polêmicos, vale a pena citar o soco que quebrou o maxilar do policial José Silva Guilfu nos jogos Pan-Americanos de 1979. Detalhe: o policial tinha pedido que os americanos, após estourarem o tempo limite, cedessem o espaço para o time feminino brasileiro treinar. Em 1985, ele arremessou uma cadeira em direção ao árbitro por não gostar da marcação de uma falta. Finalmente, em 1993, chutou o próprio filho, Pat Knight (que então jogava para o pai) no banco de reservas.

Em 2000, Coach Knight foi demitido após agredir um estudante de Indiana que “faltou com respeito” ao se dirigir a ele. A demissão gerou uma revolta pela universidade e 6 mil alunos marcharam no campus de Bloomington em protesto. O técnico tirou a temporada de folga e, no ano seguinte, assinou com a Universidade Texas Tech, onde continua até hoje. Ele criou um programa vitorioso para os Red Raiders: foram três aparições em torneios da NCAA, incluindo uma ida até as oitavas-de-final. Também fez a universidade fanática pelo futebol americano (mas nem tão fanática por basquete) adotar a “política da casa cheia”, nas palavras dele mesmo: se você estiver perto do ginásio na hora do jogo, com ingresso ou sem, alguém vai te jogar para dentro, quer você queira ou não. Ordem do General.

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Ao pessoal que lê a coluna e assiste aos vídeos no Rebote, peço desculpas pela ausência. Fui praticar meu snowboard no período entre o Natal e o Ano Novo, numa estação de esqui em Nova York, perdi o controle numa parte que tinha muito gelo e tive uma microfratura no joelho. Mas, como podem ver, estou de volta.

 



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