26/08/2006 - 01:55

Disciplina e organização

Em 2002, os Estados Unidos sentiram um grande baque ao término do Campeonato Mundial de basquete. Pela primeira vez na história, o ainda chamado “time dos sonhos” sofria um revés, mesmo tendo jogadores profissionais em quadra. Os jornais caíram matando e a estrutura em torno da seleção americana foi reelaborada. Logo de cara, antes da negociação com alguns jogadores, veio a notícia: Coach K foi nomeado o novo treinador.

Com nome de origem polaca e difícil de pronunciar, Mike Krzyzewski (para aqueles que desejem praticar: chã-chéf-squi) chegava com fama de técnico vencedor. Mas quais são suas grandes conquistas como treinador? O que ele teria a acrescentar para a seleção americana que Larry Brown, o antecessor, não teria conseguido? E mais: poderia um técnico universitário comandar atletas profissionais que, em geral, andam mais preocupados com o dinheiro do que com a honra de defender o próprio país?

Para começar a responder a essas perguntas, é necessário voltar um pouco no tempo. Krzyzewski estudou em West Point, famosa academia militar americana. Lá pelo meio dos anos 70, largou a carreira militar após um convite de seu ex-técnico na universidade, o hoje lendário Bobby Knight. Ele foi convidado a ser assistente técnico de um programa de treinamento de basquete disciplinador que começava na Universidade de Indiana.

Logo no primeiro ano do programa, os Hoosiers foram vice-campeões da NCAA, perdendo apenas um jogo naquele ano: a final para Kentucky. Depois de dois anos como assistente, Coach K foi chamado para ser técnico de West Point, onde ficou por cinco anos. Depois disso, foi para a Universidade de Duke, onde assinou um contrato vitalício de US$ 1,5 milhão por ano - em 2006, por sinal, este acordo completa 25 anos.

Nesse tempo todo em Duke, Krzyzewski acumulou cinco títulos e mais de 700 vitórias. Tornou-se apenas o sétimo técnico na história da NCAA a concluir tal façanha. Mas o que realmente impressiona é a quantidade de vitórias: venceu 75.1% dos jogos em que atuou à beira da quadra.

Krzyzewski tem um estilo disciplinador que prioriza o trabalho em equipe não apenas no basquete, mas também nas salas de aula de Duke (90% dos jogadores que passaram por ele concluíram a faculdade). Com ele, não tem estrelismo. Além disso, o treinador gosta de priorizar a defesa, principalmente o perímetro e a transição. Nem por isso ele deixa de azeitar o time para jogar ofensivamente, claro, com muita organização e usando as melhores armas. Até aí, não há nada diferente do que um bom técnico faria. A grande diferença está na relação com os atletas.

“É um sonho jogar para um cara como esse - ele é feito uma rocha e acredita em você a cada segundo na quadra. Eu amo Coach K. Eu atravessaria uma muralha de tijolos por ele”, derramou-se Jason Williams certa vez.

Foi assim que o técnico conseguiu juntar em quadra Dwyane Wade, LeBron James e Carmelo Anthony, sem trombar com nenhum ego e fazendo o time trabalhar em equipe.

Aliás, é importante dizer que ele dedicou atenção especial a Melo. O jogador do Denver Nugetts não conseguia render na NBA o mesmo que rendeu quando foi campeão da NCAA. Ficou um pouco desmotivado, estava com um estilo de jogo muito marrento e era acusado por alguns jogadores de excesso de estrelismo. Pensando nisso, Krzyzewski adicionou Jim Boeheim, técnico de Syracuse, à comissão. A idéia era fazer Anthony trabalhar não só a parte física, mas também mental. O resultado foi imediato: o atleta não só voltou à forma antiga de jogar como se tornou um dos principais líderes do time. Nos jogos da primeira fase, foi o maior cestinha americano na história dos mundiais em uma só partida, com 35 pontos diante da Itália, superando Kenny Anderson.

Mesmo com pouco tempo para treinar e pouco descanso da maioria dos jogadores, o selecionado americano se uniu sob a batuta de Coach K. Apesar de terem caído num grupo razoavelmente forte, os EUA passaram atropelando os adversários. Não é à toa que Mike Krzyzewski está lá no Japão.

 



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