23/10/2005 - 00:53

Gerentes de banco

Em meio às intensas negociações para se chegar ao novo acordo trabalhista da NBA, em junho passado, pouca gente notou um ponto que parecia desprezível diante de mais um milhãozinho no bolso ou menos um ano de contrato garantido. Pois bem. Esta semana, a bomba explodiu: o chefão David Stern anunciou que todos os atletas terão de seguir um código de vestuário.

Saem calças jeans desbotadas, camisetas e cordões de gângster; entram ternos bem cortados e gravatas.

Os mais disciplinados e os dublês de galã não reclamaram muito, mas grande parte dos jogadores abriu o berreiro. O exemplo mais significativo deste grupo, não só pelo tamanho do seu talento, é Tim Duncan. “Acho que isso é um monte de bobagem. Entendo o que pretendem ao proibirem chapéus, lenços, camisetas antigas e coisas do tipo. Tudo bem. Mas não entendo por que chegar a esse ponto”, disse ao jornal San Antonio Express-News.

A estrela dos Spurs, porém, deixou o melhor para o final: “Acho que é, basicamente, uma idéia de débil mental”.

Por “idéia de débil mental”, entenda-se a obrigatoriedade de vestir, em todas as atividades do time ou da liga – incluindo viagens –, camisa, calças e sapatos sociais. No caso de jogadores presentes ao ginásio, porém fora da partida, também é obrigatório usar um paletó.

A lista de itens expressamente proibidos é extensa: camisa sem manga; camiseta; uniformes (exceto quando o evento exigir); short; qualquer tipo de chapéu, boné ou acessório semelhante; correntes e medalhas; óculos escuros; e fones de ouvido (exceto em deslocamentos e no vestiário).

O objetivo da liga, ao impor as regras, é acabar com os abusos e transmitir uma imagem mais corporativa. O astro pós-adolescente LeBron James parece ter entendido o conceito. “Algumas vezes você está com preguiça e não quer botar um monte de roupas. Mas isto aqui é um trabalho. Nos divertimos, mas ainda é um trabalho, e temos de parecer com pessoas que estão indo trabalhar”, declarou ao Cleveland Plain Dealer.

É curioso ver justamente esses dois jogadores em posições, se não contrárias, bastante divergentes. O maquinal Duncan defendendo a liberdade dos jogadores e o espetacular James aceitando a rigidez de Stern e da liga.

Portanto, quando Spurs e Cavaliers se encontrarem, no dia 4 de novembro, em San Antonio, é bem possível que, enquanto LBJ estiver exibindo seu terno de grife, orgulhoso, Duncan passe correndo de fininho, de jeans e camiseta, buscando a segurança do vestiário. Os olhos do público, porém, provavelmente sequer notarão essas duas cenas, patéticas cada qual ao seu modo; estarão fixos na quadra, onde os dois astros mostrarão, minutos depois, onde acontece o verdadeiro espetáculo da NBA.

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Em junho de 2001, depois dos vexames sob o comando dos arrumadinhos Vanderlei Luxemburgo e Leão, Luiz Felipe Scolari assumiu a seleção brasileira. Ao ser questionado sobre o estilo dos seus antecessores, repetiu uma de suas frases preferidas: “Quem usa terno é gerente de banco.” Acabou campeão do mundo.

 



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