28/09/2005 - 21:38

Aperto no coração

Os seis títulos na década de 90, cortesia de um tal de Michael Jordan, não podiam sair de graça. É claro que, depois da partida do camisa 23 e de seu guru, Phil Jackson, ninguém esperava outra conquista em 1999. Entretanto, sob o comando do chefão Jerry Krause, o Chicago Bulls iniciou um período deplorável que nem o mais pessimista dos pessimistas poderia prever. Na temporada encurtada de 1998-99, foram 13 vitórias e 37 derrotas; em 1999-00, 17 e 65; e finalmente, em 2000-01, o fundo do poço, com 15 e 67.

No ínterim, Krause comandou uma coleção de negócios exóticos, como a troca de Elton Brand pela escolha que se tornaria Tyson Chandler no draft de 2001. Ou a contratação de Charles Oakley para ser um “exemplo” para os adolescentes Chandler e Eddy Curry. Ou a transação que enviou Ron Artest (!), Brad Miller (!!), Ron Mercer e Kevin Ollie para Indiana por Jalen Rose (!!!), Travis Best e Norm Richardson.

Mesmo quando os Bulls finalmente se livraram de Krause, substituído por John Paxson, o azar bateu à porta do United Center: o armador Jay Williams, segundo do draft de 2002 e promessa da equipe, sofreu um acidente de moto que colocou em dúvida a continuidade de sua carreira.

Mas, com paciência e fazendo boas escolhas em seus dois drafts, Paxson conseguiu colocar os Bulls de volta no rumo. O time já realizava a melhor temporada dos últimos sete anos quando, em março passado, Curry apresentou problemas no coração.

Apesar disso, Chicago continuou em frente, fechando a temporada com 47 vitórias, voltando aos playoffs e deixando suspensa a situação do pivô. A esperança era de que o tempo e a medicina livrassem os Bulls de mais essa infelicidade, mas a estratégia não funcionou.

Agora, enquanto Curry se diz liberado para voltar às quadras, a equipe pede um exame de DNA que afaste definitivamente o risco de uma grave doença no coração (cardiomiopatia hipertrófica). Sem ofertas de outros times ou trocas atraentes, a proposta na mesa é a mínima, de US$ 5,14 milhões por um ano. E Paxson já avisou: mesmo que Curry se recuse a fazer o exame – e, conseqüentemente, a jogar – prefere manter o jogador encostado, pagando seus salários, do que entregá-lo de bandeja a outra equipe.

Por quê? Porque o pivô marcou 16,1 pontos por partida, com aproveitamento de 53,8% em arremessos e 72% em lances livres, na temporada passada. Porque, apesar da média pífia de rebotes (5,4), ele ainda tem muito espaço para se desenvolver. Mas, sobretudo, porque às vezes a NBA ainda parece viver mais do medo de perder um bom jogador do que da ambição de montar um time equilibrado e sem distrações.

Paxson precisa esquecer os fantasmas dos negócios mirabolantes de Krause e da maldição que pareceu por muito tempo pairar sobre os Bulls e, mesmo com o coração apertado, tomar a decisão necessária: mandar Curry procurar sua turma.

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Pode ser descrença na humanidade. De todas as teses envolvendo a situação de Curry, a única que não me convence é a de que a principal preocupação de Paxson ou do agente do jogador, Leon Rose, é a saúde do pivô. A opção de rolar a pedra mais uma temporada é aceitável para o gerente dos Bulls porque, assim, ele evita mandar uma peça valiosa para um rival e garante, desde já, um alívio de R$ 5 milhões no teto salarial para a temporada 2006-07. Para Rose, bater o pé significa manter a esperança de obter um contrato longo que garanta a aposentadoria de Curry aos 22 anos – e os seus 5%. O coração que se vire.

 



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