14/06/2005 - 04:32

Saborosa precipitação

Um grupinho no SBC Center não resistiu à tentação e começou, ali mesmo, ainda no segundo jogo de uma série contra nada menos que os atuais campeões, a gritar: “MVP! MVP!”. O homenageado, o argentino Manu Ginobili, havia acabado de despejar mais uma coleção de infiltrações, tiros de três e lances livres sobre as já inchadas cabeças dos Pistons. Ainda assim, depois de duas vitórias e 53 pontos contra a melhor defesa da liga, ele preferiu a cautela: “É claro que aprecio isso. É bonito, mas é algo em que nenhum de nós deve pensar agora”, disse.

Manu quer driblar, além dos atônitos defensores do Detroit, a precipitação. Talvez se lembre do início dos playoffs. Confrontado com uma derrota inesperada diante dos Nuggets, o técnico Gregg Popovich teve uma idéia igualmente inesperada: mandar Ginobili para o banco. O argentino aceitou a decisão, colocando o grupo em primeiro lugar, e os Spurs venceram quatro seguidas para liquidar a série.

Como a estratégia havia “funcionado”, com o camisa 20 dando um gás aos reservas dos Spurs e marcando quase 23 pontos por partida mesmo saindo do banco, Popovich manteve Brent Barry no time titular. Mas bastou um perigoso empate em 2-2 com os Supersonics para Pop apelar ao plano B: Ginobili. E, logo na primeira partida de volta ao quinteto inicial, o argentino marcou 39 pontos para mostrar que não pretendia mais sair dali.

O resto da história permanece fresco nas memórias dos fãs: um confronto mais tranqüilo do que o esperado contra os Suns e duas partidas geniais diante dos Pistons. As médias nestes últimos jogos – 26.5 pontos, seis rebotes, 4.5 assistências, duas bolas roubadas, 66% de aproveitamento em arremessos (inclusive de três) e 88% em lances livres – são impressionantes e, ao mesmo tempo, contam pouco sobre o impacto de Ginobili.

Para entender, é preciso assistir às disparadas destemidas em direção à cesta, aos tapas precisos para roubar a bola de adversários desatentos, aos passes inspirados, aos arremessos exatos da linha dos três e, sobretudo, à garra inesgotável em meio a jogadores que muitas vezes atuam como se estivessem coçando a barriga em uma tarde sonolenta de domingo.

Se Ginobili será o MVP, ninguém sabe. Mas, quando Pistons e Spurs entrarem em quadra mais tarde, em Detroit, para um terceiro jogo que pode praticamente definir o campeão da NBA, a turminha do SBC Center certamente estará reunida em algum lugar, pronta para repetir o cântico do último domingo e saborear sua precipitação.

 



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