11/12/2006 - 17:51

Zebra havaiana

Como nos traz semanalmente aqui o Texano, começou mais uma temporada da NCAA, o basquete universitário americano, que dispensa maiores apresentações. Algumas expectativas cercam a competição: como estará a reputação do técnico Mike Krzyzewski depois do bronze no Japão? O torneio de 2006-2007 conseguirá revelar alguém realmente interessante ao basquete profissional? Em quantas confusões Bob Knight se envolverá? E qual será a maior surpresa do ano?

Algumas equipes já aprontaram no passado. Villanova com seu jogo praticamente perfeito na final de 1985 contra Georgetown, de Patrick Ewing. A inexpressiva Notre Dame quebrando a invencibilidade de 88 partidas da UCLA de John Wooden em 1971. Ou a vitória de Texas Western, com um quinteto titular completamente negro pela primeira vez na história, contra a Kentucky, do técnico etnocentrista Adolph Rupp – o triunfo deu origem ao filme Glory road, que não foi lançado por aqui.

Nenhuma zebra, no entanto, se compara à do dia 23 de dezembro de 1982 na Arena Neil Blaisdell, em Honolulu, diante de 16 mil pessoas. Primeira no ranking da NCAA, a Universidade de Virginia, à época comandada pelo gigante Ralph Sampson (2,21m, com carreira de sucesso no Houston Rockets, da NBA) e pelo armador Rick Carlisle (atual técnico do Indiana Pacers), enfrentaria a Universidade do Havaí, quarta cabeça-de-chave da NAIA, divisão de acesso da principal liga universitária americana.

A disparidade era tão grande que Virginia vinha de um Final Four no ano anterior, uma vitória contra Georgetown de Ewing na semana antecedente e com Ralph Sampson liderando as estatísticas em pontos e rebotes. A vitória estava selada antes mesmo da partida contra uma universidade que não tinha um técnico em regime exclusivo, um único jogador com mais de 2,06m e menos de mil alunos em seu campus.

Sabedor das dificuldades, Merv Lopes, o tal “treinador” que recebia US$ 5 mil por ano, colocou o seu atleta mais alto em cima de uma cadeira para treinar a rotação defensiva por pressão sobre o imenso pivô adversário.

E deu certo. Na preleção, zero de tática, nada de conselhos técnicos. Lopes apenas berrou no vestiário: “O valor do coração não pode ser medido”. O embate começou equilibrado, mas logo Virginia abriu diferença de 19-12 com 11 minutos por jogar. Quando todos no ginásio esperavam o rolo compressor adversário, o armador Tim Dunham, de apenas 1,80m, e o tal pivô-de-cadeiras Tony Randolph mudaram o rumo da história.

O primeiro, com cestas. O segundo, evitando as de Sampson (que terminou com 12 pontos, 4-9 nos arremessos e 17 rebotes) e contribuindo com a melhor marca de sua carreira, 19 pontos. Os havaianos fizeram daquela noite a maior festa do campus da universidade após derrotar a poderosa Virginia por 77-72.

Com cadeira no treinamento, sem técnico exclusivo, contra gigante do outro lado, sem preleção. A zebra foi tão grande que 20 anos depois, em amistoso realizado no mesmo ginásio para comemorar a data histórica, Sampson comandou a surra de mais de 50 pontos dos visitantes.

Os havaianos, evidentemente, pouco ligaram.

 



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