18/05/2007 - 00:28

Aprendendo com o Tio Flip

Flip Saunders assumiu o Detroit na última temporada e logo foi apontado como um dos prováveis demitidos em 2005-06. Após perder a final de conferência para o Miami Heat, seu mundo quase caiu - Ben Wallace foi para Chicago reclamando dos métodos do antigo técnico. Em 06-07, obteve 11 vitórias a menos que em sua estréia nos Pistons e jamais teve a confiança de ser um comandante da mesma qualidade do elenco. Engano.

O treinador soube ajustar a tática de passes curtos e deslocamentos (graças aos bloqueios dos pivôs, Rip Hamilton e Chauncey Billups realizam os já famosos pêndulos no garrafão) com a chegada de Chris Webber, sacou Nazr Mohammed da rotação e deu mais tempo de quadra para Antonio McDyess. O Detroit, que já contava com o núcleo campeão dois anos antes, cresceu de produção na reta final.

Contra o Orlando Magic na primeira rodada, a tática foi simples: para cima de Grant Hill, as infiltrações de Prince (16.5 de média na série, 15% a mais que sua produção regular); post-ups (jogos de costas para a cesta) de Billups (22.5 pontos e sete assistências) contra Jameer Nelson; e poucas chances para Dwight Howard (10.5 arremessos por partida, mesma média da temporada, e 4.25 erros no confronto). O resultado foi uma fácil varrida, o paradoxal aumento na pontuação em relação à temporada regular (de 94 para 97 pontos) e os titulares convertendo mais de 10 pontos em todas as quatro partidas.

Confiantes, os Bulls pareciam rivais mais complicados para os Pistons. Eu mesmo caí na empolgação da molecada de Illinois. Esqueci que entrosamento, técnica e ajustes táticos são absolutamente fundamentais em playoffs. Scott Skiles não encontrou fórmulas para deter as investidas de Flip e verá as finais em seu sofá.

Logo no primeiro jogo, a surpresa: ao contrário do ferrolho anunciado, Saunders soltou o time, mas com uma razão: a velocidade dos pêndulos da dupla Rip e Billups cansaria os armadores sem potencial físico dos Bulls (Gordon, Duhon e Hinrich). Na defesa, ao contrário do que aconteceu contra o Orlando, o Detroit afrouxou propositadamente o jogo de garrafão do adversário - Ben Wallace, veja só, teria de Flip a liberdade de que tanto reclamava. O pivô até que não foi mal (4-5; nove pontos), mas os outros alas do Chicago não contribuíram: duas conversões em 20 tentativas (10% de aproveitamento). Com média total de 45.2 pontos durante a temporada, o trio dos baixinhos somou irrisórios 27.

No confronto seguinte, Wallace, Tyrus Thomas e Nocioni anotaram 47 dos 87 pontos da equipe (mais da metade). Para quem possuía 64.6 (65%) dos 98.8 de média do campeonato e todo um sistema ofensivo proveniente dos armadores, é uma grande diferença, e um baita mérito do adversário. Deng, Duhon, Hinrich e Gordon somaram 34 pontos (39%) no jogo 2. Rip e Billups, somados, atingiram 38. Depois de mais uma atuação de gala de Prince (23 pontos e 11 rebotes) e uma queda na concentração nos dois jogos seguintes, a chave de ouro veio no sexto e decisivo embate. Skiles tentou, mas não soube deter as manobras de Flip Saunders.

Novamente com a mesma receita, o Detroit contou com péssimas atuações dos “baixinhos” adversários (Duhon, Gordon, Hinrich e Sefolosha somaram 10-31 nos arremessos para atingirem míseros 30 pontos). A dupla de armadores dos Pistons somou 44 pontos, e com apenas um desperdício de bola. Para se ter uma idéia do acerto tático de Flip, 20 dos 48 pontos do primeiro tempo do Chicago (41%) vieram das mãos do veterano P.J. Brown, cuja média na temporada regular parou em 6.1 pontos.

Sem fazer alarde, o Detroit pode chegar a sua terceira final de NBA em quatro anos. Também no estilo mineiro, Saunders mostra que já pode ser considerado um dos melhores da liga, principalmente nestes momentos de ajustes e contra-ajustes. Cleveland e New Jersey possuem tantas armas quanto o Chicago. Vamos ver se Mike Brown ou Lawrence Frank cairão nas mesmas armadilhas do professor Flip.

 



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