26/04/2007 - 15:52

Sobre Leandrinho, Jay-Z e troféus

Melhor sexto homem da temporada 2006-07 da NBA, dono de um contrato de US$ 32 milhões por cinco anos, ídolo da torcida do Phoenix Suns e elogiado por craques como Dirk Nowitzki, Tracy McGrady e Kobe Bryant. Quem vê o sucesso de Leandrinho no basquete americano talvez desconheça as dificuldades que o armador passou.

"Este prêmio é o resultado do trabalho de uma carreira. Para ser sincero, sabia que estava entre os indicados, mas não imaginei que venceria. Estou muito feliz com o troféu e espero evoluir ainda mais com meus companheiros", afirmou Leandrinho ao Rebote, por telefone, do Arizona, enquanto assistia à segunda partida do playoff entre Houston Rockets e Utah Jazz, aguardando a chegada aos Estados Unidos do irmão e da mãe, que àquela altura ainda não sabiam da notícia.

Nascido há 24 anos em uma família humilde de São Paulo e campeão brasileiro por Bauru em 2002, o armador decidiu tentar a sorte no melhor basquete do mundo. Arrumou as malas, contratou um intérprete (o canadense Gregory Dole, que agora vive no Brasil) e foi treinar em Cleveland sob a supervisão do influente e extrovertido Willian Wesley, ou simplesmente Wes.

Sem saber falar quase nada de inglês, o brasileiro apenas sorria e obedecia às ordens do técnico. Até que um dia, tentando ser simpático com o pupilo, Wes quis saber qual o cantor de hip-hop favorito do rapaz. Tímido, ele balbuciou o nome de Jay-Z. O celular foi acionado, e o rapper atendeu. Wesley explicou o motivo do chamado e pediu que Leandrinho cantasse uma música do artista. O brasileiro não se intimidou e aceitou o pedido. Jay-Z e sua namorada, a também cantora Beyoncé Knowles, começaram a gargalhar. Pediram apenas que o "brazillian boy" não parasse.

No dia 28 de julho de 2003, veio a surpresa: Wes convidou o jogador para o show de Jay-Z no Arizona.

"Foi demais. Antes do espetáculo, fui ao camarim e conheci pessoalmente não só o Jay, mas a Beyoncé também. Ele foi muito simpático e se lembrava da história. Rimos bastante e vimos a apresentação toda de dentro do palco", conta Leandrinho.

Neste início da carreira, ele foi praticamente adotado por Stephon Marbury (hoje no New York Knicks), que lhe ensinou muito sobre a liga e o presenteou com um carro. Marbury foi o primeiro a telefoná-lo na segunda-feira para dar os parabéns pelo prêmio.

Com a saída do melhor amigo, Leandrinho passou a ser o armador titular do time, mas o rendimento não foi o esperado. A barreira do idioma, principalmente para um atleta que precisa se comunicar com o elenco, passava a fazer diferença. Foi aí que Jill Lewis, hoje namorada do atleta, passou a ajudá-lo.

"Como eu fiz apenas duas aulas de inglês, ligava para ela de cinco em cinco minutos para saber o que significava uma palavra nova. Sempre muito paciente, ela me explicava e eu anotava. No começo foi difícil, mas agora eu me sinto adaptado", afirma.

Ciente de que precisava aumentar o seu repertório de jogadas, o armador continuou treinando com o assistente Dan D`Antoni. Aumentou em 38% a sua pontuação (em 2006-07, foram 18.1 pontos, com aproveitamento de 47% nos arremessos, 84% nos lances-livres e quatro assistências por partida), ganhou mais tempo de quadra (de 27.9 em 2005-06 para 32.7 na atual temporada) e o respeito dos adversários. Foi chamado, por exemplo, de Ligeirinho por Tracy McGrady, o astro do Houston Rockets que ficou impressionado com a sua velocidade.

Apesar do reconhecimento, Leandrinho não gosta de ouvir os elogios da mídia e de outros atletas. Humilde, diz que prefere se manter concentrado e credita grande parte de seu sucesso ao mentor Dan.

"Posso afirmar que, sem os meus técnicos, eu jamais chegaria aqui. Mas gostaria de dedicar o momento que estou passando especialmente ao Dan, que todos os dias traz algo novo para mim, me explica situações diferentes e trabalha com muita calma para eu me tornar um grande jogador", destaca o brasileiro, que finaliza o ciclo de honrarias recebidas pela franquia nas últimas três temporadas (Mike D`Antoni foi o melhor técnico em 2004-05; o canadense Steve Nash ganhou duas vezes seguidas o prêmio de MVP; e o francês Boris Diaw foi o atleta que mais evoluiu no último campeonato).

Sem receber felicitações dos outros brasileiros da liga, o armador dos Suns não tem esperanças de que a situação do basquete nacional mude por causa de seu prêmio.

"Não sei até que ponto este fato pode ajudar a melhorar a crise pela qual a modalidade passa no Brasil. Seria muito legal se significasse algo, mas eu não posso interferir na situação. Penso apenas em ganhar um título com o Phoenix Suns, que me dá todo o carinho e o suporte que eu preciso para jogar", finaliza Leandrinho, sem confirmar presença nos Jogos Pan-Americanos e no Pré-Olímpico de Las Vegas.

 



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