08/04/2007 - 00:27

Contra o establishment

Nunca duvidei da capacidade de Hélio Rubens. Se por um lado a parte psicológica e de liderança são irrepreensíveis, posso discutir seus conceitos, métodos e carga tática. Mas o que dizer do treinador, que ao retornar a Franca com nove títulos nacionais, acaba de chegar à final da Liga Sul-americana, está a apenas duas vitórias de mais uma final paulista e virtualmente classificado para a segunda fase do insosso Nacional da CBB?

Aos 66 anos e com um punhado de estrelas de sucesso doméstico (Helinho, Estevam, Rogério e Murilo), Hélio parece se reinventar em sua volta (ao que parece definitiva) a Franca. Não deixa de ser uma resposta àqueles que usaram a palavra “desatualizado” para demiti-lo após a eliminação no Mundial de 2002.

A fórmula ofensiva é basicamente a mesma: pouca aceleração, bloqueios no alto do garrafão (com Murilo) para desbalancear a defesa adversária e passe para o interior (onde está Estevam). Além disso, os famosos “jogos de duplas” com os alas Rogério e o americano Lang funcionam bem no circuito latino-americano. Se há diferença deste time para os anteriores de Hélio, é a fluidez na troca de passes. Até mesmo o consagrado argentino Julio Lamas se atrapalhou com este sistema nas semifinais da Sul-Americana, que dirá os técnicos daqui - cada vez mais defasados em suas cargas táticas, de estudo e treinamentos.

Na defesa, a mudança. Hélio Rubens sabe que não pode exigir de armadores tão baixos (Helinho e Matheus) e do veterano ala Rogério (cujo potencial físico é frágil e o deslocamento lateral é praticamente nulo) tanta pressão na bola. Por isso o treinador faz o óbvio: enche o garrafão, evitando o “post-up” (jogo de costas) contra estes atletas, diminui as falhas nas rotações e espera o resultado nas bolas longas. Não à toa, nas quatro derrotas da equipe no Nacional, os adversários obtiveram bons aproveitamentos nos chutes de três pontos: o Paulistano, com 39% (7-18), o Uberlândia (36%; 10-28), o Brasília (38%; 13-24) e Rio Claro (40%; 8-20). Único time a derrotar Franca duas vezes no Estadual, o Paulistano repetiu o procedimento do Campeonato Brasileiro: na inesperada derrota na semifinal do Paulista, os comandados de Neto chegaram aos 39% de fora, com nove acertos em 23 tentativas. No dia 14 de fevereiro, 46% (6-13). Outro que conseguiu sucesso foi o São João da Boa Vista, que se valeu dos 38% nas bolas de fora para assinalar a maior zebra do torneio.

No que pode ser considerado uma renovação de conceitos, Franca tem o ataque mais positivo do Paulista (91.1 pontos por partida), é a segunda que mais arrisca tiros de três pontos na competição (29.2 por jogo) e lidera em dois conceitos importantes: o número de assistências (20.8) e a equipe que menos comete erros (13.3), gerando a excelente média de 1.56 passe por violação - para se ter uma idéia, Detroit e Phoenix, os melhores da NBA, têm relação de 1.74.

No outro extremo da quadra, as vulnerabilidades citadas acima se refletem no baixo índice de rebotes por partida (31.3, apenas a décima entre os 14 participantes), em roubadas (9.1, a sexta) e nos já citados aproveitamentos de três pontos dos adversários. Entre os destaques individuais estão Murilo - oitavo cestinha com 17.4 pontos e o terceiro em rebotes, com 8,26 -, o líder em eficiência (20,89), Helinho (18,77) e Rogério (18), que figuram entre os seis melhores no mesmo quesito.

Principais expoentes da classe no país, Lula, Guerrinha, Neto e Flávio Davis não chegam perto do sucesso doméstico de Hélio. Se o “manda-chuva” da seleção tem aproveitamento de 61% de vitórias em Nacionais, o treinador do Paulistano pára nos 48%, o de Rio Claro em 62% e o do Minas em 56%. Muito pouco se levarmos em conta os 70.8% de Hélio (376 triunfos em 531 partidas). O provável rival do francano na final do Paulista, Marco Antonio Aga, marca razoáveis 44%.

A coincidência é que Lula é o técnico da seleção principal, e Neto, Guerrinha e Davis, os seus assistentes - e há pouco tempo Aga comandava seleções de base. Fica difícil acreditar que em breve tempo o basquete nacional prosperará, principalmente porque aqueles que possuem a carta branca da CBB não encontram fórmulas para derrotar o experiente, interminável e, para alguns, desatualizado Hélio Rubens.

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ENCONTRO - Organizado pelo promissor técnico João Marcelo Leite, do Saldanha da Gama, do Espírito Santo, será realizado no dia 14 de abril o segundo circuito de treinadores de basquete na capital capixaba. Citado à exaustão na coluna, Hélio Rubens será um dos palestrantes. O outro será Guerrinha, eliminado da Liga Sul-Americana uma fase antes do “titio” Hélio....

 



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