23/02/2007 - 17:31

No retrovisor

Demorou, mas Paulo Bassul chegou ao cargo que merecia: o de técnico da seleção feminina. Uma ótima notícia, tanto pela entrada de um sujeito estudioso, criterioso e antenado às nuanças do basquete mundial, como pela saída de Antonio Carlos Barbosa. Nem tudo são flores, porém.

Se por um lado a seleção tem o mais preparado dos técnicos na linha de frente, por outro possui uma geração cujos valores individuais não são dos mais generosos. Bastou observar o último Nacional, vencido pelo Ourinhos, do agora treinador da seleção. À exceção de Clarissa, do Fluminense, nenhuma atleta com menos de 22 anos foi revelada. O jeito, então, é se espelhar em times como CSKA (Rússia) e Dallas Mavericks, e na seleção Sub-21, vice-campeã mundial em 2003, dirigida pelo próprio Bassul.

No Dallas comandado por Avery Johnson, nada menos que cinco jogadores registram médias superiores a 10 pontos (em verdade, quatro, mas Devin Harris tem 9.8) e outros oito atuam por mais de 17 minutos. Um bom exemplo de como o jogo coletivo flui pode ser verificado na ótima média de 92.5 pontos sofridos por jogo, a quarta da liga. Nos erros, apenas 13.5 por rodada. Mais: são 5.15 tocos por noite, quinto melhor desempenho do campeonato, mais da metade (54.4%) dos arremessos convertidos surgem de assistências, a melhor média da NBA, e no quesito assistência/erros o número chega a 1.46.

A prova de que a batuta de Johnson funciona com todos está em Dirk Nowitzki, o craque do time: um ano após estarrecer a liga com seu jogo defensivo de alto nível, ele ainda encontrou espaço para evoluir. Registra recorde pessoal nas assistências (3.8) e nos percentuais de arremessos de quadra e de três pontos (50% e 42%). Em resumo: defesa forte, jogo solidário no ataque, elenco balanceado e espírito coletivo.

Com dois títulos continentais na bagagem, o italiano Ettore Messina assumiu o CSKA da Rússia na temporada 05-06. De cara, desbancou o bicampeão Maccabi Tel-Aviv na final, conquistou o seu terceiro título europeu e o primeiro do clube em 35 anos. No mais truncado circuito do mundo, Messina instituiu uma sólida barreira defensiva e insistiu nos treinamentos de fundamentos – a equipe foi a que menos errou na Euro, com 17.1 por partida. Onze atletas atuaram por mais de 15 minutos e quatro deles anotaram mais de 10 pontos por jogo. Os resultados se mantêm nesta temporada. Com apenas uma derrota e 87.7 pontos por jogo, a equipe já surrou o Barcelona, o Benetton e o Zalgiris, do brasileiro Marcelinho Machado, e demonstra que um novo título não será surpresa. Messina explica: defesa pressionada, atenção com os fundamentos e distribuição do tempo de quadra.

Em 2003, Paulo Bassul dirigiu e conscientizou meninas com menos de 21 anos de que existe basquete coletivo e competitivo. Com média de altura de 1,84m, uma das mais altas registradas por seleções nacionais, não foi à toa que apenas a ala Flávia esteve presente entre as oito cestinhas, com 13.1 pontos, número nada acima do normal – outras seis superaram a média de cinco por partida. O país também liderou a tábua nas assistências (11.1 por jogo) apesar dos erros (17.5), e se colocou entre os três melhores ataques do torneio (70.1 pontos por partida, 48.4% nos arremessos de quadra e 33% da linha de três).

Fora isso, nada menos que 10 atletas registraram médias superiores a 14 minutos por jogo - Flávia foi a que mais esteve em quadra, com razoáveis 25 minutos. Mas não foi só taticamente que Bassul e as jogadoras brilharam – tecnicamente, a seleção teve ótimo rendimento. Erika e Flávia, com 65 e 61.4%, encabeçaram a lista das melhores arremessadoras; Nathália, nos três pontos, ficou em sexto com 45.8%. A derrota por 71-55 na final contra os Estados Unidos não impediu que Bassul lançasse o exemplo: ataque equilibrado, divisão racional das responsabilidades e tempo de quadra, fluidez no ataque e solidariedade na defesa.

Paulo Bassul é estudioso e entende como o basquete mundial é jogado. A conscientização das atletas de que o jogo coletivo é possível em seleções nacionais de alto nível e a ênfase no setor defensivo serão suas maiores tarefas. Com menos valores individuais e atletas com potencial físico reduzido, as novas tendências devem ser vistas como chances de crescimento pelo técnico. Em mandarim, crise e oportunidade são representados pelo mesmo anagrama. Que Bassul se espelhe nos orientais e reconduza o país à elite do esporte.

 



Voltar ao índice de textos de Fábio Balassiano

 

C O L U N I S T A S



Splitter, Oden, Ray Allen e o trio
da Flórida: o melhor do draft-07




Mesmo chegando até o fim, o
Nacional ainda é uma decepção



Bate-papo com o brasileiro
Jonathan Tavernari, de BYU



Para Ricky Rubio, chegou a hora de
mostrar serviço entre os adultos



Após 47 colunas, um "até logo"
para os leitores do Rebote


P E R S O N A G E M




NENÊ
Denver Nuggets

Clique aqui e saiba mais


 





 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Edição e webdesign: Rodrigo Alves