30/01/2007 - 00:22

Coach Carter

A arte, que contou a história de Ken Carter no filme Coach Carter, está sendo reinventada em Nova York. Um fenômeno de 25 anos é o responsável pela transformação da Manhattanville College, da Division III da NCAA, na maior sensação do torneio de 2007 até então. Pat Scanlon é o nome do técnico que exigiu notas e comprometimento dos atletas.

Ao contrário do que se pensa, Pat não foi um “almofadinha” típico das universidades americanas. Integrante do time em seu segundo ano, foi expulso de Manhattanville por causa de péssimas notas. O motivo? O então jogador se negava a comparecer a qualquer classe. Mas Pat aprendeu com a chance que teve.

Contou com o apoio do técnico Ian Curtin, que permitiu que ele treinasse e acompanhasse o time sem vestir o uniforme da faculdade; do professor de história Lawson Bowling, que viu no menino uma escrita com sentimento raro para um jovem de vinte e poucos anos; e da agora noiva Stefanie Tropea, que desafiou o então namorado a obter notas melhores que as dela.

Responsável pelas estatísticas e pelas análises dos adversários, Pat reviu seus conceitos e foi indicado em 2004 para assistente técnico de Dean Meminger, ex-jogador da NBA e campeão em 1973 pelos Knicks. Assumiu em 2004, com 23 anos, e desde então os seus comandados pagam pelos seus erros do passado.

Os treinamentos começam às 5h45 da manhã. Não é raro ver os assistentes de Scanlon rondando as janelas para comprovar a presença dos atletas nas salas de aula. Se um estudante não comparece, a informação é passada ao treinador, que telefona aos jogadores, exigindo explicações. A média exigida pela universidade para atletas é de 2.5 pontos. Pat disse que quem não tivesse 3.0 e 80% de freqüência estaria fora da equipe. Os alunos aceitaram, e 10 dos 14 do elenco estão acima de 3.0.

Como técnico, emplacou uma tática simples: velocidade e pressão por toda a quadra. Os resultados aparecem nesta temporada, quando Manhattanville tem, até agora, 13 vitórias em 17 jogos, a melhor campanha da história da universidade. Os objetivos para este ano são simples: vencer a Division III da NCAA, superar os rivais da Skyline Conference e obter a vaga pela primeira vez em 27 anos na famosa “Loucura de Março”, em que as melhores equipes medem forças.

Com média de 1.963 torcedores nas oito vitórias em nove jogos no ginásio do campus, Manhattanville tem médias de 77.9 pontos (46.5% nos arremessos) por jogo na temporada, sofrendo 69.8. A tal pressão defensiva de Pat pode ser medida pelo alto número de erros dos adversários (17.3 por partida). Com treinamentos exaustivos em fundamentos, a equipe lidera a divisão em dois quesitos interessantes: a relação assistência/erros (1.2) e assistências por jogo (16.6).O espírito coletivo também é exaltado. Cody Moffett é o líder em pontos, com 13.2, mas outros quatro jogadores anotam mais de 10 por partida, equilibrando e dando fluência às ações ofensivas.

Com idade de atleta, Pat Scanlon prova que a certidão de nascimento, sempre decantada como a maior razão para as freqüentes derrotas do basquete brasileiro, nem sempre é empecilho. O estudo, a vontade, a determinação e a audácia também contam. No basquete. Na vida. Na arte.

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Estréia - Em seu primeiro ano como técnico, em 2005-2006, Pat conseguiu a segunda melhor campanha de um técnico estreante da universidade, com 19 triunfos em 29 partidas. Mesmo assim, perderam na primeira rodada da Metro Regional em 1° de março de 2006 após três prorrogações por 99 a 92 para Kean. Como se vê em 2006-2007, o técnico e o time não esmoreceram.

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REBOTE - Você podia imaginar que seria técnico aos 25 anos? Qual a importância de Dean Meminger na sua formação?
PAT SCANLON - Quando fui nomeado técnico aos 23 anos, foi surpreendente para a maioria das pessoas. Mas eu me sentia preparado para o desafio e estava muito animado para a tarefa. Meminger é incrível e aprendi muito com ele.

- Esperava esta campanha de 13-4 de Manhattanville?
- Sim, eu esperava uma ótima temporada. Nossos jogadores treinaram muito antes do campeonato, e temos bastante liderança neste elenco, o que é essencial a um time vencedor.

- Pode nos explicar sua tática de contra-ataque? Sua defesa aplica as tradicionais marcações por zona dos times da NCAA?
- Atuamos em um sistema com quatro jogadores abertos na maior parte do jogo, o que nos proporciona maior leveza para o estilo de velocidade de que gosto. Ofensivamente, corremos muito com a bola e temos um banco de reservas que consegue manter o ritmo. Na defesa, utilizamos múltiplas marcações por zona. Se você consegue usar uma, pode mexer com todas. Apesar das numerações diferentes (1-2-2 vs 2-2-1, por exemplo), os princípios são os mesmos. Como a nossa média de altura é baixa, sabemos que não vamos dominar a partida nos rebotes, e é por isso que tentamos ganhar lutando para que os rivais errem.

- Como é a sua rotina diária dentro e fora das quadras?
- Ser técnico de uma equipe me toma quase todo o tempo. De treinamentos a encontros com o time, passando por sessões de vídeo e recrutamento, gasto diariamente de 12 a 16 horas. Quando não trabalho, fico com minha noiva, família e amigos vendo algum filme ou jogo. Não gosto muito de sair à noite.

- Você lê muitos livros sobre basquete?
- Sim, leio toneladas de livros por semana. Principalmente por ser jovem, preciso encontrar maneiras de aprender sempre. E os livros me ajudam muito nisso. Muitos deles tem a liderança como foco. Poderia citar The miracle of St. Anthony, de Adrian Wojnarowski; Five-point play, do Coach K; Winning is an attitude, de John Chaney; Good to great, de Jim Collins; Never eat alone, de Keith Ferrazzi; e Winning defense, de Del Harris. Poderia seguir falando, mas acho que estes me ensinaram muito.

- E sobre o seu método de estudo da modalidade? O que você faz para melhorar o seu nível de conhecimento do basquete?
- Como mencionei anteriormente, a leitura é uma das minhas maiores ferramentas. Também procuro freqüentar jogos e treinamentos de diferentes equipes para observar como os grandes técnicos se comunicam com seus times. Também vou a uma série de clínicas durante as férias onde os melhores treinadores do mundo podem ser encontrados. Tive sorte de trabalhar com Pete Newell em uma sessão específica para pivôs. Na minha opinião, Newell é o maior professor da história do basquete. Ele, além de tudo, tem excelentes vídeos e livros, em que me espelho muito.

- Você é conhecido por ser muito severo. Como é o método de notas altas? Como as suas péssimas notas na época de aluno estão lhe rendendo dividendos como técnico? Os jogadores reclamaram em algum momento?
- Em uma universidade, você é um estudante primeiro. A palavra atleta vem depois [Nota da coluna: a frase é a mesma utilizada no filme Coach Carter]. E eu acredito nisso. É preciso ser consistente na vida. Não se pode trabalhar forte nas quadras e ser ausente nas salas de aula. Um não desqualifica o outro. Como John Chaney uma vez disse: “Você não morre em um lugar e vive no outro. Quando você morre, morre e pronto”. Quero que meus atletas sejam fortes na vida. Como técnico, tenho algo que todos que jogam querem: tempo de quadra. Então, se eu puder usar isto para que eles estudem mais e mais, eu o farei. No começo, eles ficaram surpresos, mas depois se acostumaram e agora acreditam que este é verdadeiramente o caminho. Minha experiência acadêmica me permite dizer que é possível ser um excelente estudante, independentemente de outras atividades.

- Você já viu o filme Coach Carter? Vê semelhanças entre a história de Ken Carter e a sua?
- Vi o filme com o meu time, anos atrás. Há algumas semelhanças entre nós na ênfase do sentido da sigla estudante-atleta. Foi uma boa história e espero que tenha encorajado outros técnicos para esta necessária mudança de atitude. Nós, treinadores, temos responsabilidade com os nossos jogadores que vão além do que eles fazem dentro das quadras.

- O que você sabe sobre o basquete brasileiro?
- Um dos meus antigos jogadores era brasileiro (Moisés Silva). Ele era um grande atleta até que uma grave contusão no joelho encerrou a sua carreira. Mas sei que era um bom jogador no Brasil e que há outros bons valores no país. Moisés agora trabalha em um banco de Nova York e está muito bem em sua carreira.

- Muitos críticos consideram que os técnicos brasileiros estudam pouco. Você poderia dar algumas dicas a eles?
- Não tinha conhecimento sobre esta má fama dos técnicos do seu país. Mas, em geral, nós, treinadores, devemos amar o que fazemos. Principalmente porque a função não diz respeito somente a nós. Podemos transformar os nossos jogadores, dentro e fora das quadras. Por isso, se o nosso método é preguiçoso, não estaremos fazendo mal apenas a nós, mas aos atletas também. Acredito mais no ditado “Faça o que eu faço” do que no “Faça como eu digo”. Vivo a minha vida da maneira como eu quero que os atletas sigam as deles.

- Quando os amigos te ligam convidando para dançar ou tomar uma cerveja, você se sente um garoto normal de 25 anos? O que eles falam disso?
- Acho que a minha sorte é que nunca gostei de sair. Prefiro ver filmes. Mas quando saio com meus amigos, é como nos velhos tempos. Os caras acham sensacional que eu seja um técnico de universidade, principalmente pelo meu passado alucinado dentro das salas de aula. Eles acham incrível que eu esteja ensinando aos alunos sobre basquete e vida.

- Você foi expulso da Manhattanville College por notas baixas. Qual foi a maior lição que aprendeu? Sua noiva, Stropea, o desafiava a tirar notas mais altas que as dela. Você sempre perdia. E hoje, você é um aluno melhor que ela?
- Não ter o basquete em minha vida foi uma grande lição. Fez-me ver que eu deveria ter, também, os meus estudos em ordem. Outra coisa que aprendi, com a ajuda dos amigos, foi que precisava de disciplina em todas as áreas da minha vida. Minha noiva foi espetacular neste sentido. Deu-me forças, me desafiou, exatamente como um técnico faz com seus atletas. Ela também é professora universitária e, infelizmente, ainda é mais inteligente que eu. Quem sabe algum dia eu consigo alcançá-la...

 



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