Quando foi escolhido na 30ª posição do draft de 2004, o capixaba Anderson Varejão talvez não imaginasse que o caminho para a glória seria tão rápido. Aos 24 anos, ele se tornou o primeiro jogador brasileiro a carimbar o passaporte para uma final da NBA. E não dá para dizer que a trajetória se desenhou na aba de LeBron James. Peça fundamental no esquema defensivo do Cleveland Cavaliers, ele inicia na próxima quinta o maior desafio da carreira: ajudar a equipe a frear o ímpeto de Tim Duncan.
Direto de Ohio, por telefone, Anderson falou ao Rebote sobre a série contra o Detroit Pistons, a performance antológica de LeBron no jogo 5, o encapetado Daniel Gibson, os planos para Duncan e, claro, a seleção brasileira. O Pan no Rio nunca esteve tão distante, mas a hora é de pensar em outro destino: o Texas, onde o homem da cabeleira tem um árduo trabalho pela frente.
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REBOTE - Parabéns pela vitória na série e pela classificação à final. Dois dias depois de eliminar o Detroit, já caiu a ficha?
ANDERSON VAREJÃO - Até o dia seguinte ao jogo, eu ainda estava meio assim... foi quando a ficha caiu. Nossa, a gente está na final. Demorou um pouquinho para cair, mas já caiu. Agora é só o San Antonio na cabeça.
- O Cleveland dominou a final do Leste e surpreendeu o Detroit até nas duas derrotas, quando levou o jogo até a última bola. Você esperava uma atuação tão expressiva da equipe?
- A gente estava preparado. Todo mundo pensava positivo: vamos ganhar, vamos ganhar. Nos dois primeiros jogos, que a gente perdeu lá, o time teve chance de vencer. Perdemos duas partidas e voltamos para Cleveland tranqüilos. Parecia que estava 2-0 para a gente, todo mundo confiante. Esse fator fez com que ganhássemos as quatro seguintes.
- No jogo 5, LeBron James teve uma atuação antológica. Como é dividir a quadra com um sujeito que certamente vai se tornar um dos melhores jogadores da história da NBA?
- Aquele jogo foi impressionante. Eu participava de tudo aquilo e pensava: isso parece videogame! Não era uma coisa real. Ele chamou o jogo, fez até arremesso de três caindo para trás. Ao lado dele, eu aprendo muito. É um cara inteligente. Para a minha carreira, jogar com alguém de nome como o LeBron vai ser algo sempre lembrado.
- E ele parece confiar cada vez mais nos companheiros, né?
- A gente é bem unido. No vestiário, todo mundo brinca com todo mundo. Por mais que o ataque seja direcionado para o LeBron, com a maioria das jogadas, ele sabe o momento de fazer um passe, não força de qualquer jeito. Não reclama muito, não enche muito o saco, tudo é sempre para um ajudar o outro. É isso que nos faz ter sucesso agora.
- E o calouro Daniel Gibson? As boas atuações dele no playoff te surpreenderam? Como é o convívio com o garoto?
- Ele tem um arremesso muito bom, treina bastante e trabalha duro. Está sempre no ginásio mais cedo, treinando seus chutes. Mas tem aquilo: é um novato, podia ter ficado um pouco nervoso. E com ele não teve isso. Plantou para colher. Ele fez tudo da maneira correta e, na hora da partida, estava preparado. Foi muito importante para a gente no jogo 6.
- Contra o San Antonio, a defesa do Cleveland vai precisar estar mais afiada do que nunca, e você é uma peça importante nesse esquema. Muita gente acha, inclusive, que você vai ganhar mais minutos de quadra para reforçar a marcação em cima do Tim Duncan. O que espera desse confronto?
- Vai ser uma série difícil. A equipe deles é muito experiente, está acostumada com esse tipo de jogo. O mais importante é todo mundo estar concentrado, um ajudando o outro na quadra. Para mim, o Tim Duncan é um dos cinco melhores jogadores da NBA. Vai ser importante fazer as coisas da maneira correta. Temos de diminuir o espaço para ele em quadra e não deixá-lo jogar na posição que gosta.
- Não há nenhum risco de o Cleveland entrar em quadra achando que o título do Leste já está de bom tamanho e o que vier a partir de agora é lucro?
- Não, de maneira nenhuma! O que tínhamos que comemorar na final do Leste já foi comemorado. Agora acabou, é San Antonio. Nosso pensamento está muito positivo. Queremos ganhar pelo menos um jogo dentro da casa deles para voltar a Cleveland e tentar decidir aqui.
- Você chegou à final, o Leandrinho ganhou prêmio, o Nenê voltou a jogar bem. Até que ponto a boa fase dos brasileiros na NBA pode ter influência no basquete que se joga aqui?
- É importantíssimo para o Brasil, porque abre as portas. Crianças podem olhar e se dedicar ao basquete, dizendo "quero ser como eles um dia". Quem vê pode se colocar no nosso lugar. Quanto mais brasileiros tiverem oportunidade de chegar à NBA, melhor. É o que mais me deixa feliz. Não é só o fato de eu estar aqui. Quero que todo mundo consiga viver o que eu consegui. É um sonho ver o Brasil na elite.
- Por falar em Brasil, em que pé está sua participação na seleção? Vai ser difícil mesmo jogar o Pan-Americano?
- Eu estava com tudo certo para jogar o Pan, mas nós fomos avançando nos playoffs... não que eu não confiasse no time, sempre confiei. Mas tem o fato de chegar à final, e quando acabar a temporada e vou ter minha negociação de contrato com passe livre. Tem muita coisa para acontecer, então já não há mais aquele sentimento de certeza sobre o Pan. Mas certamente quero estar no Pré-Olímpico.
- Sem Nenê e provavelmente sem Leandrinho, você deve assumir um papel de liderança no grupo do Pré-Olímpico. O que podemos esperar nessa briga pela vaga em Pequim?
- Estamos sempre confiantes, pensamento positivo. A gente tem tudo para conseguir a vaga. A equipe é boa. Falta agora entrosamento para começar a colher os frutos.
- A tendência é que você renove o contrato com o Cleveland ou pode ir para outro time?
- Tudo pode acontecer. Posso continuar em Cleveland ou, por algum motivo, ir para outro lugar. Tenho passe livre restrito, ou seja, os Cavs têm o direito de cobrir qualquer proposta recebida. Eu estou bem em Cleveland, o time está num momento ascendente. Tenho tudo para ficar, mas nunca se sabe.
- Você é o jogador da NBA que mais cava faltas de ataque, e muita gente acha que você faz teatro para enganar a arbitragem. Esses comentários te incomodam?
- Não, eu procuro nem dar ouvidos. O que eu faço é ficar ligado para pegar falta de ataque. Continuo fazendo o que eu acho que vai ajudar a equipe.
- Nessa de irritar os rivais, você ainda se deu bem em cima do Rasheed Wallace, que acabou expulso no último jogo...
- Eu procurei fazer meu trabalho. Em todo time que eu defendo, procuro fazer algo que me torne importante para o grupo. Em Cleveland, o que eu tenho que fazer? Jogar na defesa, pegar falta de ataque, incomodar o cara, não deixá-lo receber a bola, não dar espaço para ele respirar. Em outras equipes, eu tinha que pensar mais no ataque. É isso, vou fazendo meu jogo e tentando ajudar.
- Pensar mais no ataque deve ser uma atribuição na seleção, certo? Você está preparado para assumir uma função mais ofensiva no Pré-Olímpico?
- Sim, vou ajudar mais no ataque. É que no Cleveland tem LeBron, Hughes, Gibson e outros encarregados. Mas quando eu tenho chance, também vou para cima (risos). Na seleção, se eu tiver que ser mais ofensivo, vou procurar me adaptar.