05/05/2007 - 00:33

O mestre da bagunça

Entre os 128 jornalistas americanos e canadenses que escolhem os destaques do ano na NBA, nenhum apontou Don Nelson como melhor técnico. Aqui mesmo no Rebote, ele não aparece entre os quatro treinadores citados nos palpitões dos colunistas.

Duas semanas depois, eu pergunto: e agora? Alguém aí tem dúvidas sobre quem é o treinador número 1 deste início de playoff?

A uma semana de completar 67 anos, Nellie acaba de executar uma performance histórica à beira da quadra. Botou no bolso o pupilo Avery Johnson e voltou oficialmente ao cenário.

A habilidade como gerente, claro, tem um peso enorme. As contratações de Al Harrington e Stephen Jackson, o trabalho psicológico com Baron Davis, a sabedoria ao envolver a torcida, tudo isso contribuiu muito. Mas Nelson despachou o time de melhor campanha da liga, basicamente, pelo absurdo talento que tem com uma prancheta na mão e algumas idéias na cabeça.

Ninguém na NBA sabe bagunçar um time melhor do que ele.

E não estou falando dos adversários, mas do próprio elenco. Ao longo da carreira, sempre foi assim: tira pivô, põe ala na armação, deixa baixinho marcando grandalhão, manda grandalhão perseguir baixinho, vira o livro de táticas do avesso, e por aí vai.

Além dos acertos óbvios, como a ressurreição de Davis e a aposta em Jackson, Nelson teve outros méritos na série.

Soube, por exemplo, usar Andris Biedrins na medida certa.

O joven pivô da Letônia ganhou a vaga de titular no início do confronto, mas nem por isso ficou em quadra o tempo todo. Tanto que teve média inferior a 19 minutos por partida.

Do outro lado da quadra, a medida exata entre o jogo de garrafão e o small ball passou longe do caderninho de Avery Johnson. O exemplo mais claro veio no início do quarto período do jogo 6. Sem DeSagana Diop embaixo da cesta, o Dallas permitiu inúmeros rebotes ofensivos do adversário justamente no momento em permitir a segunda chance seria doloroso ao extremo.

Outro acerto de Nellie foi não forçar a barra com Monta Ellis e Al Harrington. O ala-armador tinha acabado de ganhar o prêmio de maior evolução, e nem por isso o treinador se sentiu obrigado a usá-lo. Com baixo aproveitamento de arremessos, o garoto viu seu tempo de quadra reduzido de 34.3 minutos na temporada regular para apenas 26 neste início de playoff.

Com Harrington, a mudança foi ainda mais radical.

Ele foi titular nas 42 partidas da primeira fase desde que se transferiu para o Golden State. No mata-mata, caiu de produção e passou acertar apenas 25% dos chutes. O técnico não pensou duas vezes e o mandou para o banco. A média de minutos caiu de 33.6 para 19.5, e a de pontos despencou de 17 para 4.5.

Mesmo sem a produção habitual de duas peças importantes do elenco, os Warriors deram um show. Dirk Nowitzki só viu a bola no fim do jogo 5, e isso foi fatal para as pretensões do Dallas.

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Um atleta que parte para a infiltração, faz a bandeja, sofre a falta de Tim Duncan e leva um jogo 7 à prorrogação dentro de
San Antonio não pode, de uma hora para outra, ser acusado de amarelão. Um técnico que brilha intensamente em dois anos seguidos não pode ter seu talento lançado à sarjeta. Mas Dirk Nowitzki e Avery Johnson precisam botar a cabeça no lugar. A final de 2006 contra o Miami e esta série contra o Golden State começam a dar à dupla a fama de não conseguir resolver seus problemas em momentos decisivos. A conferir no futuro.

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Enquanto a turma dos Mavs tenta se curar da ressaca, Don Nelson terá muito trabalho na próxima fase, seja contra Rockets ou Jazz. O fato de enfrentar um garrafão mais forte (com o chinês Yao Ming ou o trio Boozer/Okur/Kirilenko) provavelmente vai limitar um pouco os experimentos criativos do treinador. Será preciso corrigir erros - como a chuva insana de tiros de três no jogo 5. Desta vez, o adversário vai ter gente para pegar rebote.

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A torcida de Oakland, realmente, é um negócio inacreditável.

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Só para provocar um pouquinho: Nelson tem hoje a mesma idade de Hélio Rubens. Sem querer comparar os métodos de trabalho, há um inegável traço de personalidade em comum: os dois mostram, em 2007, que se recusam a cair na armadilha da acomodação. Bom para o basquete, tanto lá como cá.

 



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